Permaneço imóvel na superfície quente de uma areia imaginada, num qualquer Verão a imaginar.

Sinto o incremento ameaçador da onda que me agride a cada instante, me desequilibra – sem que consiga prever a intensidade com que vai rebentar. Sinto a força agreste do vento que me arranha a pele e puxa os cabelos. Sinto a luz forte do sol que me ofusca e me queima a pele.

Resisto.

Frágil e delicado, o meu corpo tenta proteger-se e fugir a cada nova ameaça, mas a força do carácter fá-lo segurar-se ali.

Cada onda, cada rajada, cada raio de sol, trazem consigo partículas cristalinas quase invisíveis mas infinitamente resistentes. A cada instante, os cristais colam-se ao meu corpo e vão formando superfície dura e sólida de mineral. Aos poucos, o rebentar das ondas vai deixando de doer, o vento deixa de me fazer balançar, o sol deixa de queimar.

E eu permaneço imóvel até o Verão acabar.

No final dou um passo lento, forte. E encho a areia de pegadas nítidas que apontam a firmeza do percurso e o local onde quero chegar.




Sempre volto à praia que me dá a dureza de mineral . coral . cristal.

Marta, 2a.m. Basel, 2009.07.25.